Família

Pensão alimentícia: como é calculada e quando pode ser revista

Publicado em 19/08/2026 · Atualizado em 19/08/2026

Não existe percentual fixo em lei: o valor da pensão alimentícia é definido pelo binômio necessidade e possibilidade, previsto no artigo 1.694, parágrafo 1º, do Código Civil, e o percentual sobre a renda que aparece nas conversas — em torno de 30% — é apenas uma referência prática, não uma regra jurídica.

Isso significa que dois casos com a mesma renda podem resultar em valores diferentes, conforme as despesas reais da criança, o número de filhos, o custo da moradia e a divisão concreta das tarefas entre os pais.

O que compõe a necessidade?

  • Moradia: proporção do aluguel, condomínio e contas da casa atribuível ao filho.
  • Alimentação e vestuário.
  • Educação: mensalidade, material, uniforme, transporte escolar.
  • Saúde: plano, medicamentos contínuos, terapias e tratamentos.
  • Atividades e lazer compatíveis com o padrão de vida anterior.
  • Despesas específicas de crianças com necessidades de cuidado permanente.

A lista precisa vir acompanhada de comprovação. Planilha com valores estimados e sem documento tem peso reduzido — recibos, boletos e extratos sustentam o pedido.

Como se avalia a possibilidade?

Para quem tem vínculo formal, o holerite resolve boa parte da análise, e a pensão costuma ser fixada em percentual sobre os rendimentos líquidos, com desconto em folha. Para autônomos e empresários, examinam-se declaração de imposto de renda, movimentação bancária, padrão de vida e sinais externos de capacidade financeira. Nesses casos, é comum a fixação em número de salários mínimos, o que dá reajuste automático.

Quem paga e quem recebe

A obrigação alimentar é recíproca entre pais e filhos e se estende aos ascendentes, descendentes e irmãos, na forma dos artigos 1.696 e 1.697 do Código Civil. Também pode haver alimentos entre ex-cônjuges, em regra por prazo determinado, para permitir a reorganização de quem ficou em desvantagem econômica. A guarda compartilhada não elimina a pensão: se um dos genitores arca com mais despesas, a diferença é compensada.

A pensão acaba aos 18 anos?

Não automaticamente. A maioridade encerra o dever decorrente do poder familiar, mas a obrigação pode continuar com base no parentesco quando o filho ainda cursa ensino superior ou técnico e não tem condição de se sustentar. A exoneração exige pedido próprio e decisão judicial — parar de pagar por conta própria gera dívida cobrável.

Quando cabe revisão?

  • Perda de emprego ou redução comprovada de renda de quem paga.
  • Aumento relevante da renda do alimentante.
  • Novas despesas do filho: tratamento de saúde, mudança de escola, início da faculdade.
  • Nascimento de outro filho, que redistribui a capacidade financeira.
  • Mudança na convivência, quando um dos pais passa a arcar diretamente com mais custos.

A revisão é pedida em ação própria, para mais ou para menos, e produz efeitos a partir da citação. Acordo informal entre os pais, feito só por mensagem, não altera o título judicial e costuma virar problema anos depois.

O que acontece com o não pagamento?

O Código de Processo Civil prevê dois ritos. Pelo artigo 528, quanto às três últimas parcelas vencidas e às que se vencerem no curso do processo, é possível a prisão civil em regime fechado, de um a três meses, sem quitar a dívida. Pelo artigo 530, a cobrança das parcelas mais antigas segue por penhora de bens, com possibilidade de protesto do título e inscrição em cadastros de inadimplentes. Também é possível o desconto direto em folha.

Prisão civil por alimentos é medida de coerção, não punição: o pagamento da dívida da execução encerra a prisão, mas não extingue o saldo remanescente cobrado pelo rito da penhora.

Como formalizar um acordo

  1. 1.Definir o valor ou percentual e a base de cálculo — rendimentos líquidos, salário mínimo ou valor fixo.
  2. 2.Estabelecer o índice e a data de reajuste.
  3. 3.Discriminar as despesas extras: material escolar, saúde não coberta pelo plano, atividades.
  4. 4.Fixar dia e forma de pagamento, com registro bancário identificável.
  5. 5.Levar o acordo à homologação, o que lhe dá força de título executivo.
  6. 6.Guardar os comprovantes: em alimentos, quem paga precisa poder provar o pagamento.

Quando o divórcio é consensual e envolve filhos, a definição dos alimentos caminha junto com guarda e convivência. O procedimento está detalhado no artigo sobre divórcio consensual em cartório.

Perguntas frequentes

Existe um percentual mínimo de pensão previsto em lei?
Não. A lei não fixa percentual: o valor decorre da necessidade de quem recebe e da possibilidade de quem paga. Os percentuais mencionados com frequência são apenas referências de prática forense.
Quem está desempregado precisa pagar pensão?
A obrigação continua, mas o valor pode ser revisto para se adequar à nova realidade. O que não se admite é a suspensão unilateral do pagamento sem decisão judicial.
Pensão paga direto na escola conta como pagamento?
Depende do que diz o título. Se o acordo prevê pagamento em dinheiro ao outro genitor, quitar despesas diretamente pode não ser reconhecido como cumprimento. O ideal é que o acordo descreva exatamente essa forma de pagamento.
Guarda compartilhada elimina a pensão?
Não. Compartilhar as decisões sobre a vida do filho não significa dividir igualmente as despesas nem o tempo de convivência. Havendo desequilíbrio, a pensão continua devida.

Sobre o autor

Rodrigues & Silva Advocacia atua em Porto Alegre desde 2013, com foco em família e sucessões, direito imobiliário e contratos. Os sócios Milena Silva (OAB/RS 83.791) e Vinícius Rodrigues (OAB/RS 81.097) respondem pelos casos do escritório. Conheça o escritório.

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